Caso 1
SRd, +- 2 anos de idade, Tico
Histórico
Tico vivia no CCZ de São Bernardo do Campo. Aparentemente apresentava bom estado geral, normorexia, normoquezia, urina normal, sem alterações respiratórias ou em outros sistemas.
Responsável relatava prurido facial nota 8/10, de poucas semanas de evolução. Notava autotraumatismo com sangramento em focinho. Contactantes assintomáticos. Não observava pulgas, nem carrapatos. Sem uso de ectoparasiticidas. Dieta ração comercial.
CCZ de São Bernardo está localizado próximo à um córrego. O atendimento ocorreu em um final de ano.
Foi trazido em caixa de transporte e foi observado que o animal esfregava com frequência o focinho na grade da caixa, aumentando o sangramento.
Ao exame físico foi possível identificar lesões papulares e eritematosas predominantes em ponte e plano nasal, com alopecia e exsudato sanguinolento (Figura 1).
Figura 1 - Lesões de auto traumatismo em face de felino acometido por reação de hipersensibilidade, compatível com os padrões de reação “prurido cabeça e pescoço” e dermatite miliar (pápulas e crostas).
“Prurido cabeça e pescoço e dermatite miliar são padrões de reação cutânea em gatos, frequentemente associado a dermatoses de base alérgica, como dermatite alérgica à picada de pulgas, dermatite trofoalérgica, síndrome atópica cutânea e, menos comumente, hipersensibilidade a picada de mosquitos“
Como exame complementar foi realizado citologia por técnica de decalque em lâmina, contudo, apenas algumas células descamativas e hemácias foram encontrados. A citologia foi importante para eliminar possíveis diagnósticos diferenciais, tais como esporotricose, infecções bacterianas superficiais ou mesmo detectar a presença de eosinófilos.
O diagnóstico presuntivo, baseado no histórico, possível presença de mosquitos em contato com o animal e ainda pelo descarte de processo infeccioso, foi de hipersensibilidade a picada de mosquitos.
Foi prescrito prednisolona, mas devido dificuldades na administração de fármacos orais, o paciente foi tratado com dexametasona injetável na dose de 0,1mg/kg, SC, em dias alternados, em um total de 5 aplicações. A coleira Serestoâ, apesar de prescrita, não pode ser comprada pelo CCZ, contudo, a Bayer, na ocasião, gentilmente cedeu uma caixa. Após poucas semanas a melhora lesional era intensa (Figura 2).
Em mais algumas semanas, a melhor notícia foi divulgada: Tico havia sido adotado e estava em ótimo estado geral!
Figura 2 – Mesmo animal da Figura 1, em poucas semanas de uso de Serestoâ e após corticoideterapia.
HIPERSENSIBILIDADE A PICADA DE MOSQUITOS
Trata-se de uma dermatose alérgica caracterizada por prurido variável, relacionada principalmente com reações de hipersensibilidade do tipo I ou imediatas, em que IgE específica contra antígenos salivares de mosquitos se ligam a receptores localizados nas membranas de mastócitos induzindo degranulação e liberação de substâncias vasoativas e inflamatórias, tais como histamina e citocinas (Figura 3).
As lesões se desenvolvem em resposta à exposição ao mosquito e desaparecem em um ambiente livre dos mesmos ou com a ação repelente de inseticidas contidos na coleira Serestoâ. A distribuição lesional normalmente se concentra em face (Figura 4), pavilhões auriculares (Figura 5) e mais raramente, em coxins.
O diagnóstico é principalmente clínico, mas pode ser confirmado por exame histopatológico. O quadro apresenta boa resposta com o uso de glicocorticóides, mas a prevenção com o uso de repelentes de alta segurança e eficácia em gatos, como a coleira Seresto é primordial.
