Caso 2
SRd, 12 anos de idade, Amarelinha
Histórico
Amarelinha vive em uma casa telada em São Paulo, sem acesso à rua e convive com outros 6 gatos, assintomáticos.
Tutora relatava prurido e lambedura nota 7/10, cerca de dois anos de evolução. A localização do prurido incluía as axilas, os flancos, a parede torácica, membros torácicos e região perineal. Não havia lesões em orelhas ou em região facial/cervical. Não observava pulgas, nem carrapatos. Uso esporádico de ectoparasiticida a base de dinotefuran/piriproxifeno. Dieta ração comercial. Em um retorno trouxe um contactante que apresentava dipilidiose. Sem alterações em outros sistemas.
Exames complementares prévios incluíram cultivo micológico (negativo), pesquisa de Malassezia (negativo) e cultivo bacteriano (isolamento de estafilococos sensível a oxacilina). Já havia sido tratada com prednisona, prednisolona, norfloxacino e fluoxetina, sem melhora.
Ao exame físico foi possível identificar lesões erodo-ulcerativas predominantes em região lateral de tórax, membro torácico e região perivulvar (Figuras 1 e 2).
Figuras 1 e 2 - Lesões de auto traumatismo erodo-ulcerativas em felino.
“Devido aos hábitos de auto-higiene próprios da espécie felina, o encontro de ectoparasitas durante o exame físico nem sempre é possível. Isso não deve excluir uma suspeita diagnóstica de DAPE (dermatite alérgica à picada de ectoparasitas)“
Como exame complementar foi realizado citologia por técnica de fita adesiva, contudo, apenas algumas poucas bactérias cocóides e raras células descamativas foram encontradas.
O diagnóstico presuntivo, baseado no histórico de irregularidade do uso de ectoparasiticidas, nos achados de exame físico e na presença de dipilidiose no contactante, foi de provável dermatite alérgica à picada de pulgas (dapp).
Foi prescrito como anti-inflamatório, inicialmente, prednisolona, mas devido a falta de resposta, outros protocolos foram testados, tais como dexametasona, oclacitinib, prednisolona com amoxicilina clavulanato e ciclosporina, associada com deflazacorte, que foi a prescrição com melhor resultado clínico. Foi indicado, concomitantemente, o uso regular de ectoparasiticidas e em todos os animais da casa. Por motivos financeiros, a tutora inicialmente optou por continuar com a pipeta spot on a base de dinotefuran/piriproxifeno mensalmente em todos os gatos. Contudo, mesmo após 3 meses seguidos, não houve melhora clínica significativa (Figuras 3 e 4).
Finalmente, a tutora aceitou testar a coleira Serestoâ na Amarelinha, mas manteve as pipetas nos demais gatos. Após cerca de 2 meses, a melhora foi notável, com redução ampla do uso dos medicamentos antipruriginosos (figuras 5 e 6).
Figuras 3 e 4 – Lesões erodo-ulcerativas em região de membro torácico e em região de períneo em animal com suspeita clínica de dapp.
Figuras 5 e 6 – Paciente Amarelinha com a coleira Serestoâ e sem lesões em membro torácico (fotos da tutora).
DERMATITE ALÉRGICA A PICADA DE PULGAS
Dermatose alérgica mais frequente em cães e gatos. Caracterizada por reações de hipersensibilidade imediatas (tipo I ) e tardias (tipo IV), o que justifica a persistência de prurido mesmo na ausência das pulgas. Os aspectos clínicos em cães são repetitivos e incluem distribuição de prurido e lesões inflamatórias preferencialmente em região lombo-sacra, cauda, membros pélvicos e abdomen ventral. Contudo, em gatos a apresentação lesional não tem um fenótipo padrão estabelecido, de forma que comumente encontra-se manifestações de alopecia simétrica, prurido cabeça e pescoço, dermatite miliar e complexo granuloma eosinofílico (figura 7), além do padrão observado tradicionalmente em cães.
O diagnóstico requer o descarte de outras doenças pruriginosas e se define geralmente pela observação de melhora frente à redução da infestação pelos artrópodes. A associação de flumetrina e imidacloprida (Serestoâ) representa uma ação sinérgica repelente de alta eficácia e segurança no controle de pulgas em cães e gatos.
Figura 7- animal acometido por DAPP, com lesões de úlcera indolente e granuloma eosinofílico.
